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20 janeiro 2012

Foco!

Salvador já começa a se transformar para abrigar mais um Carnaval. Está se aproximando a tão propagada “maior festa popular do planeta”. A partir de agora, o soteropolitano sente sua proximidade, quando percebe que já surgem na paisagem as estruturas que abrigarão os camarotes. Nesta época, também, a mídia abre espaço para as notícias relacionadas ao evento. Nem todas elas são favoráveis. Nos últimos anos, o número de matérias ressaltando algum ponto negativo é cada vez maior. A abordagem das críticas, ultimamente, tem sido quase sempre a mesma: o lucro de alguns grupos em uma festa que deveria ser popular – como se esse fosse o único motivo que faz com que, aos olhos de alguns, a nossa festa perca cada vez mais o apelo popular.

Se a coisa fosse tão simples assim, seria fácil reverter o quadro em que se encontra hoje o Carnaval de Salvador. Em um sistema capitalista, a obtenção de lucro é o resultado de competência. Não é de hoje que pessoas e grupos lucram com a festa. Isso é normal e saudável. No meu entender, o maior problema que enfrentamos é o foco.

Mais uma vez, matérias com críticas ao nosso Carnaval devem começar a ser veiculadas. Quero convidar as pessoas envolvidas com a festa, principalmente os artistas, a repensarem o nosso foco. Alguns poderão me chamar de saudosista, mas acho que o maior problema de hoje é que uma grande parcela de nós vem direcionando o seu foco para a mídia. Tudo hoje é pensado visando atrair a atenção das tvs, dos sites, revistas e jornais, sem se importar com quem, em um passado recente, era o maior objeto da nossa conquista: o folião que sai na rua, seja em bloco ou na pipoca. Houve um tempo onde o nosso sucesso era medido pelo grau de satisfação proporcionado às pessoas que acompanhavam o nosso trio. Nos dias de hoje, o mais importante é o tempo de exposição na mídia. E tome-lhe invenção de parafernálias cenográficas nos trios, figurinos cada vez mais chamativos, músicas de efeito imediato. Coisas que, sem dúvida, geram conteúdo midiático, mas não necessariamente atingem quem deveria ser o foco. Essa é uma visão bem pessoal, fruto de longos anos participando da festa e observando seus movimentos.

Claro que a mídia é fundamental na carreira de um artista, mas sua busca não pode ditar as regras de uma festa que nasceu e cresceu sendo de rua. Que os patrocinadores buscam retorno em tempo de exposição é um fato, mas é também um fato que cada ano está mais difícil atraí-los. Quem está envolvido no evento sabe muito bem que nem sempre foi assim. Muito se fala da falta de renovação musical dos artistas. Como é possível renovar, se não existe espaço para isso? É cada vez mais difícil um artista novo conseguir firmar uma carreira. O que vem surgindo, na maioria das vezes, são criações de empresários, que lançam produtos que aparecem e somem, antes mesmo do público poder saber se são bons ou não. É a indústria das “revelações do Carnaval”.

Bons tempos aqueles em que se vibrava pelo sucesso de alguém que despontava e conquistava espaço através de trabalho. Tempos onde as músicas eram executadas em rádios sem as tabelas de preço. Em que o que se tocava nas programações eram realmente as músicas preferidas do público.

Foi-se o tempo em que um grupo se reunia para sair nas ruas seguindo um artista que admirava. Como fazer isso nos dias de hoje, onde é preciso pagar caro por uma vaga para um bloco poder desfilar nas ruas? Atualmente parece que surgiu, em algumas pessoas, um tipo de prazer mórbido de decretar o fim da carreira de artistas, não importando se são novos ou antigos. Não sei em quê o Carnaval de Salvador ganha com a decretação da “morte” de artistas – alguns antes mesmo de terem a oportunidade de mostrar sua proposta musical. É uma sensação de que se torce contra. A quem interessa isso? Não seria melhor mudar o foco e apontar caminhos, ao invés de simplesmente “endemoniar” os que têm competência para lucrar com a festa? Por que não viabilizar meios para que novos artistas surjam e que os antigos sejam respeitados?

Sei que muitos logo irão dizer que estou me manifestando por não ter, no momento, o destaque na mídia que já tive em outros tempos. Antes de saírem atirando, peço que tenham pensamentos maiores do que a simples crítica a um artista que participa do Carnaval de Salvador há 30 anos ininterruptamente. O meu trabalho já está marcado na história da vida de muita gente que, ao longo desses anos – iniciados no Pinel, passando pelo Frenesi, Eva, Crocodilo, Coruja e, atualmente, no Bicho – viveram comigo as alegrias que um Carnaval pode proporcionar.

Fiz o meu primeiro Carnaval em 1982. Naquela época, as críticas eram focadas na violência. Os órgãos de segurança pública se especializaram e hoje sabem como ninguém atuar para garantir uma festa relativamente segura. Com o passar dos anos, o foco passou a ser a tensão gerada pela bagunça na organização da saída dos blocos. Surgiu a fila, baseada no critério – até agora imutável – segundo o qual antiguidade é posto. Depois as críticas se voltaram para o suposto sufocamento das entidades culturais pelos “inimigos capitalistas”, representados pelos blocos de trio que visavam somente o lucro; e, de lá pra cá, com o surgimento e crescimento dos camarotes, essa tem sido a tônica para justificar o tão falado declínio da indústria oriunda do Carnaval de Salvador.

Que o Carnaval está passando por um momento que exige reflexão, é inegável. Faço parte de uma geração de artistas que, trinta anos atrás, comandou a transformação da nossa festa e ajudou a torná-la mundialmente famosa. A música produzida pela minha geração, naquela época, mudou o foco (olha ele novamente) da indústria fonográfica brasileira e atraiu, para o nosso Carnaval, os olhos de patrocinadores que jamais imaginavam investir em uma festa com as características da produzida por nós.

Ao longo dessas três décadas, nunca deixei de dar a minha opinião sobre as coisas ligadas à nossa festa. Fosse elogiando ou criticando, sempre me manifestei visando a sua melhoria. Ao final do Carnaval passado, escrevi um texto intitulado “Silêncio Conveniente”, onde convidava meus colegas artistas a refletirem sobre o nosso papel na festa. Alí, eu me referi especificamente ao item “engarrafamento”, que foi, em 2011, um fator de transtornos muito grandes. Se esse meu convite serviu para alguma coisa, só saberemos a partir do momento em que o primeiro trio desfilar em fevereiro de 2012.

Minha intenção, com esse texto, é tentar fazer com que se pense o Carnaval de Salvador de uma maneira construtiva e que ele volte a ter o foco no folião, que não pode deixar de ser o maior beneficiado da festa. Como aceitar que todos corram atrás da mídia, em Ondina – e que não se permita que as “vagas” deixadas no Centro sejam ocupadas? Como ficar calado vendo alguns decretarem o declínio do circuito da avenida, sem que nada seja feito? Esse ano, algumas atrações tocarão em seus trios para a pipoca no circuito do Centro. Isso é muito bom e espero que novas vagas sejam disponibilizadas com esse objetivo. Nós, artistas, devemos retomar o comando da situação e reestabelecer a linha direta com quem está nas ruas. Foram eles que consagraram as nossas músicas, que nos tornaram artistas de massa. Graças a eles, fomos capazes de atrair para a nossa festa de rua os olhos da indústria fonográfica, da mídia nacional, das agências de propaganda e até das “celebridades” em busca de alguns minutos de fama.

Só conseguimos isso porque a nossa música tinha a nossa verdade. Conseguimos isso, porque íamos para as ruas tocar para o povo dançar, e não para buscar tempo de aparição em tv ou fotos em matérias de jornais. Isso era decorrência do que fazíamos nas ruas. Esse é o meu sentimento. Roubando um verso de Caetano, acho que “alguma coisa está fora da ordem”. Muita coisa no mundo está “de pernas para o ar”. A nossa festa também. Espero que Salvador volte a ter o Carnaval de rua que mereceu tanto destaque mundial.

No próximo, eu estarei lá, mais uma vez, participando e continuando a ser trilha sonora de momentos felizes na vida de pessoas.

Bom Carnaval para nós!
Ricardo Chaves – cantor e compositor

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38 Respostas

  1. Vinicius

    Acredito que um dia o Carnaval de Salvador passará a ser como o Fortal e Folianopólis por exemplo. A Barra-Ondina cada vez mais cheia, a Avenida entregue ao descaso. Pelourinho só vive pelo clamor turístico. Isso pode significar uma festa Indoor para aqueles que bancam alto esse investimento e que querem "segurança e comodidade". Fui nascido e criado na Avenida, a energia é diferente naquele circuito, o carnaval é na avenida, mas infelizmente isso está acabando. Pude observar bem no ano passado como é o carnaval na Barra- Ondina e a conclusão que tiro é que não existe essa desculpa de que o Carnaval da Avenida é difícil para os blocos devido ao aperto, para com isso, o circuito Dodô está insuportável de gente pois aquelas pessoas que querem ver seus artistas sabem que não terão isso no circuito Osmar. Pude observar também o descaso da mídia com alguns artistas que são a historia desse carnaval como Viviane Tripodi e Luiz Caldas, foi lamentável. Essa onda absurda de camarotes, meu Deus, infestaram o circuito de passarelas em quase todos para os artistas saírem dos seus trios e fazerem uma festa particular para o pessoal que tem medo de rua. Pois é Ricardo, concordo plenamente contigo e te dou meus parabéns pela sua inteligência, discernimento e coerência em prol do Carnaval do POVO.

  2. Guto Brandão

    Grande, Ricardo. Muito bom seu texto, apesar de não concordar integralmente com ele em pouquissimos pontos, especialmente quando você coloca a mídia "das antigas" como sem "donos" e , também, quanto a essa estoria das saídas de atraçoes sem corda para revitalizar o Carnaval da Avenida; definitivamente o problema do enfraquecimento não passa pela questão das cordas e sim por problemas na organização da festa que a tornaram desconfortável e inseguro.
    Tenho 17 anos trabalhando no carnaval, lá no "chão, e sinto que estamos em um péssimo momento; deixamos de ser um movimento, uma grande celebração para nos tornarmos cada vez mais uma "feira de atrações musicais".

  3. carlos

    Que falta daquele carnaval da guitarra Bahiana dos calambeques verdadeiros carnavais pesssoas saiam as ruas com intenção de brincar hoje virou comercio de pessimos cantores e da midia que tanto faz mal a esse povo brasileiro idolatrando pessoas sem culturas e sem saber o que significa o nome CARNAVAL!!!!!!!!!!

  4. Guto Brandao

    Com todo respeito a você, Bell, Durval, Netinho e tantos outros artistas por quem nutro grande admiração – e com alguns, estreitos laços de amizade -, sou realmente saudosista dos tempos que iamos para uam festa no Bahiano de Tenis pelo encontro de pessoas e nao pela atração da noite; que lotávamos o Eva, o Pinel, o Cameleao, o Beijo, porque estariam ali nossos amigos e "objetos de desejo…rsrrs…e a atração em cima do trio so tinha que desempenhar com competencia sua função de catalizador da nossa alegria, com direito a parar para almoçar no meio da avenida..rsrsr…nao tinha problema,enquanto voces almocavam a gente sentava no chao e paquerava.
    Parabens mais uma vez pelo posicionamento oportuno e equilibrado; você tem toda autoridade para expor tais colocações, afinal é um um dos mais relevantes nomes desse nossa festa que ainda insiste em se manter fastastica…nao sei ate quando

  5. taiane

    Você simplesmente disse tudo que eu venho dizendo aos meus amios nos ultimos anos.
    Parabéns!!!
    E quando você diz no texto que "Tudo hoje é pensado visando atrair a atenção das tvs, dos sites, revistas e jornais, sem se importar com quem, em um passado recente, era o maior objeto da nossa conquista: o folião que sai na rua, seja em bloco ou na pipoca." É exatemante o que acontece, nos que pagamos para sair nos blocos – principalmente na Barra – Ondina, somos totalmente esquecidos em prol de camarotes e emissoras de televisão.

  6. Pablo Moura

    Ricardo, mais uma vez vc deu um show de coerência no seu relato. É por esse tipo de atitude, além da óbvia competência como artista e extrema simpatia como pessoa que vc é o que é… curto axé desde minha pré-adolescência e comecei a frequentar o carnaval de SSA há apenas 8 anos, já peguei essa festa em decadência, mas, me admiro a ver que a cada ano a coisa fica pior. Não desmereço o trabalho de nenhum dos grandes artistas do axé, mas, a cada ano venho deixando de lado os blocos comandados pelas grandes potências da mídia em troca de blocos onde a pessoa se diverte e curte um carnaval de verdade, como é o seu caso, dos blocos puxados por Netinho, Margareth, esse ano teremos a volta de Gil Melândia e outras sumidades do carnaval que estão afastadas da grande mídia! É uma pena termos um só dia de Bicho comandado por você em 2012, senão estaria os dois dias atrás do seu trio! Cansei de estar em blocos superlotados parecendo um corredor que leva bois para o matadouro, cansei de pagar para ver o artista repetir 500 vezes a música de trabalho para cada camarote que passa, cansei de pagar para ficar parado enquanto o artista faz um show particular de uma hora em frente de seu camarote… bloco tem que andar! Cansei de pagar para ser maltratado por profissionais do próprio bloco, onde já presenciei seguranças agredindo e assaltando foliões dentro de um bloco considerado top! Cansei de pagar para ver um artista e na hora do bloco ele só toca música de outros (inclusive fica essa dica Ricardo, estaremos no Bicho com você e queremos ouvir RICARDO CHAVES… quem está ali são seus fãs e se quiséssemos ouvir outras bandas estaríamos em outros blocos)… Enfim… cansei desse carnaval de mentira!
    Abração!!!

    1. I would imagine the government will be watching the clinical trials with extreme interest. If in fact anacetrapib demonstrates protective properties to the 30,000 volunteers, it could be speculated that the insurance companies would have to give a real close look at coverage of this new med, with cost savings associated to codiirbm-oties and interventions for CAD. Looking forward to seeing more as this develops.

  7. Pingback : Ricardo Chaves » Blog Archive » CARNAVAL OU FESTIVAL? EIS A QUESTÃO!

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